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Manoel
Carvalho Neto Os
donos da bola Empresas dominam o futebol e lucram com paixão dos torcedores "Aproveitadores. Mercenários. Sem amor à camisa". Foi assim que, em 1938, a imprensa e a então Confederação Brasileira de Desportos (CBD) chamaram os jogadores da seleção, depois que estes reivindicaram uma diária de 25 dólares para se manterem na França. Quase 70 anos depois, esse valor não seria suficiente para pagar as duas cervejas e a entrada de Roberto Carlos na polêmica visita dos jogadores a uma boate suíça. Há muito o futebol tornou-se um grande negócio, um espetáculo que movimenta milhões de dólares e faz dos principais jogadores astros milionários, capazes de vender os mais diferentes produtos e girar gigantesca roda de negócios. Naquela noite, na boate, Ronaldo atacou de DJ. Dias depois, os fones de ouvido que ele usou estavam sendo leiloados na internet. O Fenômeno ainda transforma em ouro tudo o que encosta, mas o Toque de Midas está mesmo nas mãos de Ronaldinho, o jogador mais bem pago do mundo. Eleito por dois anos o melhor jogador do mundo, seu preço subiu. De acordo com a revista France Football, o jogador do Barcelona faturou cerca de 70 milhões de reais em 2005, entre salários e cachês. Hoje, aos 26 anos, ele apareceu em 12 campanhas publicitárias, de chicletes a refrigerantes. Sua marca foi avaliada em 125 milhões de reais, a mais alta do futebol. A indústria da bola Segundo estudo da
Fundação Getúlio Vargas, o futebol mundial movimenta
cerca de 250 bilhões de dólares por ano. Parte disso diz
respeito aos salários dos jogadores, venda de camisas e produtos
dos clubes e ingressos. Estima-se que um torcedor europeu gaste, em média,
20 dólares por ano com seu time do coração. A cartolagem no Brasil se desenvolveu e hoje é bem mais prejudicial ao esporte. No entanto, os Kleber Leite da vida nem se comparam aos novos empresários do futebol mundial. O tempo agora é de figuras como o russo Roman Abramovich que colocou sua fortuna misteriosa (surgida após o fim da União Soviética) no Chelsea, da Inglaterra. Ou de Malcolm Glazer, que investiu no também inglês Manchester United, a equipe mais valiosa do mundo, que está na bolsa de valores com ativos da ordem de 900 milhões de dólares. Mas a mina de ouro não está em camisas ou ingressos. A maior parte do faturamento vem da publicidade e dos direitos de transmissão dos jogos. Há um enorme público para isso, formado por consumidores de produtos ligados ao esporte, gente que acredita que seus ídolos usam realmente tudo o que oferecem nos anúncios e espectadores, com dezenas de partidas disponíveis na TV aberta e por assinatura. A partir da popularização da prática do futebol surge este mercado consumidor que, em um país como o nosso, com 30 milhões de "peladeiros", é um prato cheio para as empresas. Este mercado contou com a alavanca do surgimento da TV, o principal meio de comunicação de massa. As partidas deixaram de ser acompanhadas pelo rádio ou por caixas de som nos postes. A própria bola sofreu alterações, com os gomos pretos, para aparecer melhor na tela. Neste ano, estima-se que dois em cada três habitantes do planeta assistam aos jogos. Serão quatro bilhões de pessoas vendo mais de 300 emissoras de TV. Nike ou Adidas? Para quem torcer? Há outras seleções em campo. O uniforme inclui gravatas, ternos alinhados e milhões de dólares para patrocinar os jogos. Das centenas de empresas que de algum modo têm suas marcas ligadas ao mundial, destacam-se a Adidas, a Nike e a Puma, que têm feito uma intensa movimentação para ver quem chega mais longe e alcança mais público. A Puma patrocina 12 das 32 seleções. De olho no mercado africano, patrocina todas as equipes do continente, além de Itália, Suíça e Paraguai. A Adidas patrocina seis, incluindo Alemanha, França e Argentina. A Nike patrocina oito, entre elas o Brasil. Se o "quadrado mágico" trouxesse a taça, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) receberia 60 milhões de dólares da Nike. Isso sem contar o valor fixo do contrato assinado até 2018. A CBF arrecadou R$ 83 milhões em 2005 em publicidade e direito de transmissão. Até a cidade suíça Weggis teve de pagar. Foram R$ 4,3 milhões para hospedar o Brasil. A Fifa, com 15 patrocinadores oficiais, lucrará mais de 1,3 bilhão de dólares. Aqui no Brasil, a publicidade em torno da copa deve movimentar R$ 1,2 bilhão. Até o técnico Parreira entrou na dança, como garoto-propaganda de um plano de saúde e de uma escola de inglês. Neste jogo, dificilmente as grandes empresas saem perdendo. Iniciam suas campanhas meses antes e, com o patrocínio às seleções e aos jogadores, alcançam novos mercados. Ainda que sua escolhida não seja campeã, seus torcedores já terão comprado TVs, cervejas, camisas, celulares e chuteiras. A forte presença das empresas ameaça o esporte. Até mesmo o ex-jogador alemão Franz Beckenbauer admite que é preciso um freio. Para ele, "o futebol precisa de uma purificação geral". O craque, que preside os jogos deste ano, disse ser preciso discutir os limites dos lucros e tocou em temas tabus, como enriquecimento de dirigentes e treinadores e o mercado de apostas. De fato, o "exagerado empresariamento" ameaça a beleza deste esporte. Tem provocado a padronização das equipes (burocratizando e intimidando a criatividade), a exportação e transformação de atletas em empresas, a superexploração de outros milhares de jogadores, além dos sucessivos e cada vez maiores escândalos de corrupção. A voracidade desse ataque empresarial tem, inclusive, atingido o limite absurdo de controle da exibição do espetáculo. Nesta Copa foram enviadas as imagens dos gols para celulares e e-mails. Mas tudo tem seu preço e é sempre bom recordar o que ocorreu na Argentina, nas eliminatórias de 2002. Na ocasião, as TVs simplesmente não transmitiram os jogos da seleção para a Grande Buenos Aires, gerando a revolta na população. O futebol-arte na coleira Voltamos a ser vira-latas. Com a campanha e a derrota para a França, os jogadores enterraram a frase do escritor Nelson Rodrigues que, após o título de 1958, profetizou que havíamos perdido o complexo de vira-latas. Em campo, o Brasil caminhou de um lado a outro, sem conseguir ameaçar o adversário. Não rosnou, não lutou, não ofereceu perigo. Não mordeu a bola. Não mostrou os dentes. Não jogou com garra. Como todo vira-lata, não teve raça. O melhor time do mundo mostrou-se apenas uma matilha de cães adestrados. O clima de euforia dos malas Galvão Bueno e Pedro Bial tomou conta do país, mas invadiu primeiro a cabeça dos jogadores. Afinal, se o time era comparável ao de 70, como poderia não se classificar para a final? Assim, entrar em campo era apenas cumprir um ~~script~~. A vitória viria, assim como o afago ou o presente do dono após uma pirueta. A marca de um vira-lata
é a sua docilidade. Não é traiçoeiro e tampouco
compartilha da personalidade dos felinos. Pode ser maltratado, chutado,
abandonado, mas voltará a abanar o rabo ao primeiro olhar de seu
dono. É dócil. Alguns podem chamar isso de lealdade. No
caso do futebol, é apenas falta de vergonha na cara. Em 1982, depois da derrota nos pés de Paolo Rossi, Carlos Drummond de Andrade escreveu uma crônica para o Jornal do Brasil que ficou famosa. Depois de contar o choro das pessoas nas ruas, o poeta escreveu: "Eu gostaria de passar a mão na cabeça de Telê Santana e de seus jogadores, reservas e reservas de reservas, como Roberto Dinamite, o viajante não utilizado, e dizer-lhes, com esse gesto, o que em palavras seria enfático e meio bobo". Os torcedores de hoje, muitos de gerações que se acostumaram a ver o Brasil na final, não querem afagar a cabeça dos jogadores. Longe disso. Erguem o dedo médio e os xingam de tudo o que podem. Alguns podem dizer
que, se um dos raros ataques do time tivesse resultado em gol, a torcida
estaria exaltando o time. Pode até ser. Mas o combustível
dessa decepção e revolta não está apenas no
resultado. Afinal, o 5º lugar é o mesmo de 1982 e 1986, com
equipes que são lembradas até hoje, principalmente a de
1982. A apatia em campo é o motor da raiva. E quais as razões para essa apatia? Muitos têm apontado os altíssimos salários e o fato de a maioria absoluta jogar fora do país. É o que talvez explique porque três jogadores, inclusive Roberto Carlos, tiveram tranqüilidade para sair às compras no dia seguinte à derrota. Que apenas dois jogadores tenham pedido desculpas aos torcedores. Que Ronaldo tenha embarcado em um jato. Que apenas três tenham retornado ao país. O time de estrangeiros
não vestiu a camisa da seleção. Em meio às
seleções dos países, havia dezenas de outras. A do
Barcelona, do Real Madrid, do Manchester United, do Lyon, do Internazionale
de Milão. Companheiros de clubes, compartilham da vida européia,
de altos salários. Durante o jogo, trocam sorrisos enquanto sofrem
milhões de desdentados. No fim, diante da graça de um Zidane
em seus melhores dias, só faltou pedir a camisa e autógrafos.
Com exceções, não são jogadores da seleção
brasileira. Estão jogadores. Amanhã todos estarão
de volta aos seus clubes. Faltou um técnico, alguém que fizesse cada um dar tudo de si. Que fizesse com que os 22 astros fossem de fato um time. Que deixasse o veterano Roberto Carlos concentrado no jogo, a ponto de ele simplesmente esquecer que usava meias. Faltava um técnico. Tivemos um síndico. Continuaremos atrás do futebol-arte, esteja ele onde estiver! Manoel Carvalho Neto | ||